Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

quando a música se transforma num sofá

o mês de dezembro, para além do excesso de luz da quadra natalícia, traz uma melancolia suja à minha vida. sempre o trouxe e este ano as dores de barriga têm sido iguais às dos outros anos. por isso, à noite, quando regresso a casa, apetece-me esmurrar os vidros do autocarro para ver se as dores fogem com medo da minha capacidade de pugilista. mas não o faço, nunca o faço e as dores por cá ficam.
no entanto, de dor de barriga em dor de barriga, agarro-me a discos que trazem melodias que já conheço, batidas que já conheço, lugares de exploração que já explorei. é disso exemplo «plagiarism perversions» de motown junkie editado pela netlabel test tube e que pode ser descarregado no site da editora.
o que me atrai num disco que não inova, não arrisca, não nos surpreende ou espanta? isso mesmo – a sua linear condição. é como entrar em nossa casa e encontrar os objectos no mesmo sitio e sentarmo-nos no mesmo sofá que nos sentamos diariamente. gestos assim, que repetimos diariamente, são sempre vistos como enfadonhos e desmotivantes. mas também podem, se vistos com suficiente distância, ser confortáveis e ideais para operarmos pequenas revoluções dentro dessa ordem estabelecida. é o que acontece neste disco, se por um lado é um disco feito de colagens de sons que já ouvimos em qualquer lado e tratados de maneira igual, é também estimulante pelo acrescento de batidas pesadas, sombrias e, por vezes, ferrugentas. é nessas batidas me tenho refugiado desde de ontem, como se este disco fosse o meu sofá. «plagiarism perversions» é isso, um sofá.

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